Hoche Luiz Pulcherio

Titulo



Minha chegada em C Grande foi interessante: colegas armados foram buscar-me na Estação Ferroviaria com historias alarmantes de levante comunista. Não me deixaram nem fazer a barba para me aprsentar ao Cmt do Grupo devido a suposta urgência... A condução já me esperava junto a outro colega que chegava. Era uma das viaturas munição puxada a 3 parelhas de cavalos montados por soldados. A Vila Militar toda havia sido avisada de modo que fomos aplaudidos e vaiados durante a passagem... Minha raiva era tremenda, tanto que mandaram um Ten QAO (daqueles que vieram de sgtos) servir-me um café com sal e nem percebi. Ele deveria ainda derramar café em meu uniforme mas disse que ao olhar a minha cara achou melhor desistir...

Mas pior foi a sorte de dois Aspirantes que chegaram atrasados. Fizeram um “Conselho de Justiça” com um Capitão e dois “juízes” e publicaram em “Boletim” a demissão dos dois. Quase tiveram um colapso...

Não satisfeitos com o trote que me deram, ainda fui chamado pelo Ten Cel Chefe do Estado Maior da Divisão que me disse que eu teria que ser o Oficial de Dia do quartel daquela Grande Unidade durante o Carnaval que era naqueles dias. Disse-me para tomar muito cuidado pois estava previsto um levante de sargentos comunistas. Acreditando no mulecão armei-me com dois revolveres disposto a matar qualquer comuna e passei a noite em claro. Lá pela meia noite bateram na porta. Era o Sgto comandante da patrulha a cavalo que percorria a cidade. Disse-me que achava melhor não fazer patrulha nenhuma! Respondi que era para começar imediatamente. Virou-se e disse”primeiro serviço e já está chato assim”. Não tinha acabado a frase e eu já o estava estrangulando e dizendo “o que disse seu cachorro?” e ele: eu disse que meu serviço está chato senhor. E eu: vá imediatamente fazer a patrulha entendeu?

Tempos mais tarde alguma diversão. Chegou um novo Comandante que vinha da motorizada, não montava fazia tempo e eu como era instrutor de equitação achei-me na obrigação de aconselhá-lo a dar um treino antes de assumir o Comando pois queria o Grupo formado a cavalo, todos equipados em ordem de marcha e ele entraria montado. Não quis nem saber. Disse que era muito fácil. Tudo bem.

No dia marcado aparece ele. Acontece que todo quartel tem um enorme numero de cachorros que ficam filando a comida. Quando o novato entrou mais de 30 cachorros saíram correndo atrás do cavalo, que disparou e deu 8 voltas em torno do Grupo e nós contendo o riso e nele voava o capacete, o bornal, tudo, parecendo um saco de batatas... Por sorte não caiu...

Minha vida profissional no 10º Grupo de Artilharia a Cavalo naquela cidade foi como eu queria: instrutor de equitação dos sargentos e instrutor de tração dos canhões a cavalo. Lembro-me que saia na estrada a frente da bateria e era comum que um tamanduá atravessasse e a cavalhada ficava indócil. Podia ser também um enorme bando de cervos e o resultado era o mesmo. Havia também muitas cobras e quando íamos para o campo sempre perdíamos vários cavalos mordidos na cara ao pastar a noite.

Aos sábados tínhamos concursos hipicos de saltos. Como eu morava no quartel, nas folgas mandava o ordenança reunir alguns cavalos cujo aspecto eu observava durante a limpeza da cavalhada pela manhã e os levava para o picadeiro fechado para ve-los saltando em liberdade e avaliar suas qualidades como saltadores.

Assim foi que consegui um cavalo extraordinário que recebeu o nome de Legionario. Nunca me deixou com menos que um terceiro lugar nos concursos, apesar de ser ainda novo e estar aprendendo. Coração valente, nunca refugava as piores valas e descidas no exterior levando-me a abusar sem pensar muito.

Em certa ocasião tive que moderar na instrução dos sargentos pois os mais velhos vieram me pedir, alegando que tinham família para cuidar... Tinham razão pois pouco depois vieram me dizer que o cavalo de um dos sargentos havia morrido por não aguentar as subidas e descidas dos grandes barrancos. Foi um dos grandes desgostos de minha vida profissional, sentindo-me culpado.

Com meu salario passei a comprar moveis para mobiliar uma casa que consegui mais tarde. O proprietário, um turco dono de 142 casas na cidade não queria me alugar. Um dia tive uma inspiração: vi a mulher dele, uma gorda, sentada na calçada e fui falar com ela. No dia seguinte a casa estava comigo.

Morava no quartel e dormia com a porta destrancada para que o cassineiro pudesse me chamar pela manhã. Era um japonesinho o Sasaki, que insistia em entrar apezar de avisado e se deparava com um 45 meu ou de meu amigo e companheiro de quarto apontado para ele.

Periodicamente eu vinha ao Rio visitar a noiva. Saindo de avião as 5 da manhã chegava ao Rio a noite pois o avião vinha pousando nas pequenas cidades de S Paulo. Na capital tinha que trocar de avião para ir ao Rio.

Nos intervalos das visitas, copiosas cartas para lá e para cá mantinham a saudade doendo menos.

Finalmente, após um ano e oito meses, casei-me aproveitando pequeno curso que fiz no Rio.

Hoje, com a experiência já de muitos anos, posso dizer sem medo de errar que ela me mostrou que só Deus poderia imaginar e fazer uma criatura chamada mulher, pois amor, companheirismo, compreensão e apoio, firmeza, amor materno, religiosidade consciente, caráter, teu nome para mim sempre será Eunice.

Nas festas ou reuniões sociais ela se destacava e eu ficava olhando de longe, ego satisfeito, vaidade marcante.

Dela tive sempre o maior orgulho, achando que nenhum homem jamais tivera uma mulher como eu. O amor que lhe tenho, mesmo após sua partida, me acompanhará enquanto viver.

Para lhes dar pequena idéia de quem era conto como procedeu após o 8º filho (que não vingou). Foi avisada de que não poderia mais engravidar pois o risco seria demasiado elevado. Não obstante, gravida ficou nos confins de Uruguaiana. Eu quis manda-la para o Rio para maior segurança. Ela se recusou, dizendo que não iria deixar os filhos sem cuida-los pessoalmente, mesmo que lhe custasse a vida como ela sabia que poderia ser o preço!

Deu-me 9 filhos dos quais tenho também o maior orgulho e gratidão a Deus e a ela, mulher de fibra extraordinária. Poucas mereceram como ela o nome sagrado : Mãe. Todos os filhos bem formados moralmente, trabalhadores corretos e bom caráter. Atualmente dão-me netos e bisnetos.

Tenho 8 filhos vivos e no coração a cicatriz do que eu perdi, um menino demasiado prematuro.

Esses filhos são o meu esteio e apoio para suportar a viuvez com um mínimo de trauma embora, para mim, cada dia que passa seja mais um dia de dolorosa saudade e se dizem que o tempo é o grande medico, creio que se esqueceu de me medicar.

Cuidam de mim com o maior amor filial e dedicação, num acompanhamento constante. Deus também me abençoou quando deixou uma filha e dois netos morando comigo.

Fazendo um retrospecto de minha vida posso dizer que só tive pontos positivos desde que nasci.

<< Voltar <<      >> Próxima Pagina >>